O golpe militar, a ditadura e o Cruzeiro

Ditador Garrastazu Médici ergue a taça do mundo, conquistada em 1970

Ditador Garrastazu Médici ergue a taça do mundo, conquistada em 1970

O golpe militar completa 50 anos. Ontem, em minha coluna dominical no Jornal de Brasília, escrevi sobre o tema. Confira a íntegra do texto:

Memórias do golpe

Há 50 anos, eram escritas no Brasil as primeiras páginas do capítulo mais sombrio e vergonhoso da história recente do país. Na madrugada do dia 31 de março de 1964, o general Olympio Mourão Filho enviou soldados ao Rio de Janeiro, com a missão de tirar João Goulart do poder. Jango deixou o governo sem qualquer resistência e exilou-se no Uruguai. A partir de então, o Brasil mergulhou numa ditadura sanguinária, assassina e cruel. Aqueles 21 anos de governo militar afetaram todas as esferas do país, inclusive o esporte. Em 1970, por exemplo, na mais evidente demonstração de interferência da ditadura no futebol do país, o comunista João Saldanha não acatou a ordem do ditador Médici para que Dadá Maravilha integrasse o grupo da Copa de 1970. Por isso, foi retirado do cargo às vésperas do Mundial. Zagallo assumiu o posto. A Seleção venceu a Copa no México, voltou ao país nos braços do povo e foi recebida pelo ditador no Palácio do Planalto. Ao mesmo tempo que militares promoviam o jingle “Pra frente, Brasil”, nos porões da ditadura, oposicionistas eram caçados, torturados e mortos. Hoje, passados 50 anos do golpe militar, é importante que relembremos o período. Só assim, relembrando e repugnando, podemos ter a certeza que ele nunca mais se repetirá em nossa história.

A propósito, com o endurecimento do regime autoritário, período conhecido como “anos de chumbo”, a luta armada cresceu no país. Houve uma onda de sequestros de embaixadores, como forma de pressão ao governo militar e, principalmente, de libertação de presos políticos.

O sequestro mais famoso foi o do embaixador americano Charles Burke Elbrick, realizado por dois grupos – MR-8 e ALN – em 4 de setembro de 1969. Duas figuras famosas do cenário político atual participaram da ação: o jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira  e o ex-ministro Franklin Martins.

Embora repleto de erros estratégicos, o que acabou desencadeando no descobrimento do cativeiro, o sequestro alcançou o fim esperado. Quinze presos políticos foram libertados no México, dentre estes Wladimir Palmeira e José Dirceu.

Para devolver o sequestrado, os militantes foram até o Maracanã, por volta das 17 horas do dia 7 de setembro, para se misturar à multidão que deixava o estádio.

Que jogo ocorria no Maior do Mundo naquele dia? Ao contrário do que mostra o filme ‘O que é isso, companheiro’, do diretor Bruno Barreto, não era dia de Flamengo no ‘Maraca’, mas de Fluminense x Cruzeiro.

A Raposa, com dois gols de Tostão e um de Dirceu Lopes, venceu o Tricolor por 3 a 0. A partida valia pela Taça de Prata (ex-Torneio Roberto Gomes Pedrosa).

Fluminense 0×3 Cruzeiro, domingo, 07set09, 15h, Maracanã, Rio de Janeiro, 1ª rodada da 1ª fase da Taça de Prata (ex-Torneio Roberto Gomes Pedrosa), o Campeonato Brasileiro de 1969 – Público: 30.243 – Renda: NCR$95.333,25 – Juiz: José Favilli Neto (SP) – Bandeiras: José Aldo Pereira (RJ) e Luiz Carlos Félix (SP) – Gols: Tostão, 1 e 30 do 1º tempo; Dirceu Lopes, 20 do 2º – Fluminense: Jorge Vitório, Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antônio; Silveira e Cláudio (Lulinha); Cafuringa, Flávio Minuano, Samarone (Mickey) e Lula. Tec: Telê Santana / Cruzeiro: Raul Plassmann, Raul Fernandes, Mário Tito, Darci Menezes e Neco (Wanderley Lázaro); Wilson Piazza, Zé Carlos Bernardo e Dirceu Lopes; Palhinha (Evaldo Cruz), Tostão e Hilton Oliveira. Tec: Gerson dos Santos
 

 A estratégia dos guerrilheiros de se misturar às mais de 30 mil pessoas que deixavam o estádio por volta das 17 horas deu certo. Agentes que monitoravam o resgate perderam os militantes de vista. O embaixador, depois de libertado, tomou um táxi nas imediações do Maracanã.

Passados 50 anos do golpe que provocou todos esses acontecimentos no país, o desejo é só um: que tempos de censura, tortura e assassinatos promovidos pelo Estado não voltem jamais.

2 Responses to “O golpe militar, a ditadura e o Cruzeiro”

  1. […] A resistência à ditadura também se misturou ao futebol de uma maneira particular. A multidão de torcedores que saía do Maracanã numa tarde de 1969 não sabia que ali estava acontecendo um capítulo importante deste período. Foi o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick em 1969. Mantido por 70 horas em uma casa no Rio Comprido, no Rio de Janeiro, por militantes da Dissidência Comunista da Guanabara e da Ação Libertadora Nacional (ALN), e após a libertação de 15 presos políticos, o embaixador foi solto numa tarde de domingo, 7 de setembro de 1969. “Havia uma partida de futebol no Maracanã e era preciso alcançar exatamente a saída”, narra Fernando Gabeira no livro “O que é isso, companheiro?”. No Maracanã, para um público de 30 mil pessoas, o Cruzeiro vencia o Fluminense de Telê Santana em jogo da Taça de Prata, com dois gols de Tostão e um de Dirceu Lopes. Na dispersão da torcida, os militantes envolvidos no sequestro libertaram o embaixador e escaparam entre a multidão. No filme inspirado no livro, a cena é reproduzida com um Flamengo e Vasco. (Leia mais) […]

  2. Bruno disse:

    Os filmes sempre com clubismo…Por que no filme não mostraram a vitória do Cruzeiro sobre o Fluminense? Globo sempre puxando o saco do Flamengo…

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