26/11/1998 – Palmeiras 2 x 3 Cruzeiro: um jogo para a história

Festa cruzeirense no gramado do Palestra Itália (Foto: Sílvio Brandão)

Festa cruzeirense no gramado do Palestra Itália (Foto: Sílvio Brandão)

Era ano de eleições no país. Em Minas, o presidente do Cruzeiro, Zezé Perrella, decidiu se candidatar a deputado federal. Ciente de que o sucesso nas urnas dependia da montagem de um time forte para o Brasileiro, foi às compras sem economizar. Do Santos, trouxe o badalado Müller. Para vestir a camisa 10, o mandatário foi ao Japão buscar o meia Valdo, que estava longe do futebol brasileiro havia 12 anos. Djair, do Botafogo, também chegou à Toca com pompa de reforço de peso.

O trio se juntou a nomes que haviam chegado no início do ano – como Gustavo, Valdir, Gilberto e Alex Alves – e a remanescentes de 1997, entre eles Dida, Gottardo, Marcelo Djian, Fábio Júnior e Marcelo Ramos. Sob o comando de Levir Culpi, o time demorou a engrenar no Brasileiro. Em alguns momentos, como na derrota em casa para o América-RN, parecia que brigaria contra o rebaixamento. Mas a recuperação veio numa arrancada espetacular na reta final. Nas cinco últimas rodadas, cinco vitórias. Com isso, o time carimbou a 7ª vaga para o play-off das quartas de final.

Pela frente, o poderoso Palmeiras de Felipão, que havia terminado a primeira fase em 2º lugar, apenas um ponto atrás do Corinthians. A fórmula do Campeonato previa um jogo em cada domínio e um terceiro na casa da equipe com melhor campanha na primeira fase, caso nenhum dos times somasse seis pontos nos dois confrontos. No Mineirão, 54 mil viram Fábio Júnior marcar aos 17 do 2º tempo, Oséas empatar para o Palmeiras dois minutos depois e Marcelo Djian, aos 37, fechar o placar e confirmar a suada vitória celeste. Em São Paulo, oito dias depois, foi a vez de o alviverde devolver o 2 x 1. Paulo Nunes abriu o placar, Djair empatou para a Raposa, e Júnior Baiano confirmou a vitória palmeirense.

No terceiro e decisivo jogo, só a vitória interessava ao Cruzeiro. Qualquer outro resultado eliminaria o time celeste. O Palestra Itália, lotado, recebia um modesto número de cruzeirenses. Um deles era o senhor Valdir Cabral, que sentenciou:

Eu estava aqui quando o Cruzeiro fez o impossível e venceu o Palmeiras em 96. Vamos repetir o feito mesmo sem o Dida, tenho certeza.

A ausência do fenomenal arqueiro celeste foi anunciada poucos minutos antes do jogo. Dida, com dores no tornozelo, chegou a ir para o aquecimento com Paulo César Borges, mas no teste final foi reprovado. O time subiu para o campo com semblante de preocupação. Lá dentro, porém, quando a bola rolou, a apreensão deu lugar à ousadia e intrepidez. Sem tomar conhecimento do poderoso adversário que havia do outro lado, os gigantes celestes atiraram-se ao ataque. Isso resultou em gol com a assinatura do artilheiro Marcelo Ramos aos 31 minutos. Dois minutos depois, o atacante voltou a fazer a nação azul feliz. Cruzeiro 2 x 0.

Enquanto o Cruzeiro desceu para o vestiário aplaudido intensamente pela pequena torcida, o Palmeiras recolheu-se sob ensurdecedoras vaias. Felipão modificou a equipe. Almir entrou no lugar de Alex. Bastaram três minutos em campo para Almir marcar e incendiar o Palestra Itália. A pressão alviverde ficou insuportável. Até que Paulo Nunes, aos 17, empatou e colocou novamente o Palmeiras na semifinal. Para aumentar o drama cruzeirense, Valdo foi expulso. Àquela altura, com toda a atmosfera do estádio a favor do Palmeiras, ninguém acreditava num gol cruzeirense.

Só Müller, talvez. Porque, aos 43, ele tabelou com Caio, recebeu com liberdade na esquerda e, rasteiro, cruzou para Fábio Júnior. A revelação cruzeirense não perdoou: empurrou para a rede e saiu, na comemoração, mandando beijinhos para a torcida palmeirense. Mas ao contrário do que a comemoração do camisa 9 propunha, o jogo ainda não estava ganho. O Palmeiras atirou-se com tudo ao ataque. A blitz na área celeste foi intensa. Paulo César Borges ainda operou um milagre à la Dida antes de o árbitro apitar o fim do jogo e decretar a passagem do Cruzeiro à semifinal.

Enquanto os palmeirenses deixavam o estádio em silêncio, no campo, o time celeste fazia uma festa de arromba. Um dos mais empolgados era o veterano PC Borges, que, 17 anos depois, relembra a provocação que entoou na casa alheia:

Saí falando na comemoração para os porcos irem para casa. Alguns torcedores quiseram me agredir, mas desabafei bastante. Não gosto do Palmeiras. Até hoje.

Outro que irreverentemente abriu o verbo, no gramado do Palestra Itália, como se vê aqui, foi o saudoso Alex Alves:

Agora eles vão para casa, vão chupar dedo, cambada de paulista… Você sabe o quê, né?

As luzes do estádio já se apagavam quando o Cruzeiro deixou o campo. As comemorações continuaram no vestiário. E na arquibancada, onde o senhor Valdir Cabral, aquele que havia profetizado novo milagre azul, era só alegria:

Eu avisei, eu avisei! Para o Cruzeiro, jogar aqui é mais certeza de vitória do que no Mineirão.

3 Responses to “26/11/1998 – Palmeiras 2 x 3 Cruzeiro: um jogo para a história”

  1. Humberto Javan Pacheco santos disse:

    Tomara que a profecia do senhor Valdir Cabral se mantenha e a gente mete pelo menos uns tres gols hoje na nova Arena Palmeiras… Ainda que empate, tres gols lá, ficaria de bom tamanho, né?

  2. edna camio disse:

    Me encontrei com o Fábio Júnior anos atrás e contei a ele a minha reação com aquele gol aos 44 minutos do segundo tempo… quase morri… minha mãe achou mesmo que eu fosse morrer… aquele campeonato de 1998 me dói até hj.. nós merecíamos ganhar..

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