A história por trás da foto (1): “Deus existe. E acho que Ele é Cruzeiro”

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A foto acima, que inaugura a nova seção do blog (A história por trás da foto), foi tirada pelo meu pai no histórico 9 de julho de 2000, dia da finalíssima da Copa do Brasil entre Cruzeiro e São Paulo, no Mineirão. Eu tinha 16 anos e, a partir daquele dia, nunca mais questionei a existência de Deus.

O mundo parecia ter parado de girar. O silêncio, tão profundo e angustiante, ecoava a batida acelerada de 85 mil corações cruzeirenses. Olhos marejados e cheios de fé olhavam fixamente para aquela cena, com Geovanni pronto para atirar a última chance da Raposa. À frente, uma barreira tricolor, com sete brutamontes ávidos por se lançar contra a bola, tentava matar a esperança derradeira de milhões de torcedores celestes espalhados pelo Brasil. Müller era o único a dar movimento à cena. Ia até Geovanni com instruções, voltava aos companheiros dentro da área, levando e trazendo orientações. A ansiedade aumentava a cada segundo de demora do árbitro para autorizar a cobrança. Até que o som do apito se fez ouvir por toda a extensão do Gigante da Pampulha. O garoto-predestinado correu então para a bola e…

Um pouco antes… “Deus não existe”, resmunguei depois de Marcelinho Paraíba chutar de curva, quase sem ângulo, acertando o ângulo oposto de André, que falhou. “Malditos Cléber e André”, praguejei. Parecia tudo acabado. Nem a entrada em campo do “pastor” Müller nem qualquer contribuição que André e Cléber pudessem dar dali até o fim da partida pareciam capazes de mudar o fim triste da história. A fé e a esperança já não existiam mais.

Imediatamente após o gol, Fábio Júnior entrou no lugar do lateral Rodrigo. Restavam 23 minutos para o milagre. Empate de 1 a 1 já não interessava ao Cruzeiro. Apenas a vitória poderia enxugar as lágrimas de tantos torcedores. O Maior de Minas tentava chegar ao gol. Mas era evidente que o tricolor estava mais perto de marcar novamente do que de sofrer a igualdade.

Esmorecida, a China azul acompanhou sentada e calada o ídolo Ricardinho receber a bola, parar, pensar e tocar por entre as pernas do marcador para Müller. O iluminado atacante, de costas para o gol, dominou com a direita e, com o mesmo pé, tocou para Fábio Júnior, que entrava pelo lado. O matador celeste, quase em câmera lenta, acertou o passo e soltou um petardo no gol. “Será início do milagre ou sadismo do destino?”, pensei enquanto pulava, timidamente, para comemorar. Eu não tinha a resposta ainda. Apenas com o apito final saberia. Pelo menos, a partir daquele momento, o milagre ficava mais próximo do natural.

Uma tentativa, em cabeçada de Müller, aos 36. Outra, dois minutos depois, em cruzamento rasteiro do experiente craque para Fábio Júnior. E nada. Quando tinha a bola no pé, o São Paulo controlava o jogo trocando passes. Cada pedaço de esperança se consumia com o passar do tempo. Quando o relógio marcou 40 minutos do segundo tempo, baixou sobre o Mineirão o mesmo desânimo do momento do gol de Marcelinho Paraíba. O Cruzeiro – ironicamente, prestes a terminar a Copa do Brasil invicto, mas sem conquistá-la – havia acabado de desperdiçar um bom ataque, e o Tricolor ganhava tempo com a entrada de Axel no lugar de Alexandre. “Juiz, olha a cera!”, reclamei, agindo por impulso, e não por acreditar.

Que ironia! Esse mesmo Axel, menos de um minuto depois, fez o torcedor voltar a ter fé na vitória. É que saiu do pé do volante o longo passe para trás que buscava Rogério Pinheiro, mas, na verdade, encontrou o espaço vazio. Para disputar a bola nesse vão, dispararam Geovanni e o zagueiro são-paulino. Disputa tão covarde que o jovem cruzeirense já se lançava sozinho rumo à área tricolor, enquanto Rogério Pinheiro ainda embalava na corrida. Restou ao zagueiro a falta quase na linha da grande área para impedir que o atacante entrasse com a bola dominada na cara de Rogério Ceni. A torcida se agitou com a expulsão do adversário e a última chance de vencer. Ricardinho correu em direção à posição da falta, prontificando-se a cobrá-la. Geovanni, porém, se levantou, segurou a bola e avisou para o colega: “Essa é minha!”

Passaram-se mais de dois minutos até que a falta fosse cobrada. Nesse tempo, Müller orientou Donizete a posicionar-se no lado oposto da barreira e, no momento do chute, dar um tranco no jogador-base. E pediu a Geovanni que não tentasse encobrir a barreira, que era muito alta. Recomendou-lhe que chutasse forte, por baixo. Abençoadas as palavras do atacante, curiosamente, criado na base do adversário. Porque a trombada de Donizete obrigou Axel a abrir as pernas e “criar” o espaço por onde a bola chutada com violência por Geovanni acabou passando, fulminando Rogério Ceni.

Um gol que arrebatou os cruzeirenses presentes; que provou o coração do cardíaco; que deixou em êxtase a China azul pelo Brasil e pelo mundo; que me fez, antes blasfemador, virar-se para o céu e, emocionado, dizer: “Deus existe!”.

Não havia acabado. O São Paulo tinha pressa e, autorizado pelo juiz, reiniciou o jogo. Desfigurado em campo, o Cruzeiro defendia com menos homens do que os que atacavam pelo tricolor. E quase pagou caro: Belletti cruzou da direita, Carlos Miguel dominou na segunda trave, limpando Cris da jogada, e colocou com classe na cabeça de Marcelinho Paraíba, que aguardava dentro da pequena área para a cabeçada. Vendido no lance, restou a André se lançar para interceptar o arremate. E deu certo! Parcialmente, o goleiro defendeu de forma milagrosa. Foi quando surgiu, para espantar de vez o perigo com um chutão daqueles, o zagueirão Cléber. Pensei naquele instante: “São Cléber, Santo André!”.

Não demorou e veio o apito final. Emocionado, abracei o meu velho, deixando as lágrimas encharcarem o seu ombro. Quando levantei a cabeça e o encarei, vi os olhos dele marejados – cena inédita que ainda hoje carrego no peito, dentro do coração. Foi assim que vivi um dos dias mais felizes da minha vida de torcedor do Cruzeiro.

Saí do Mineirão certo de que Deus existe. E desconfiado de que Ele é cruzeirense.

5 Responses to “A história por trás da foto (1): “Deus existe. E acho que Ele é Cruzeiro””

  1. Naldo disse:

    Assisti este jogo pela TV. Foi, realmente muito emocionante, assim como a final contra o Palmeiras em 1986.

  2. Maria jose disse:

    Um dos dias mais felizes como torcedora. Texto lindo.

  3. Rabelo disse:

    Texto excepcional. Lembro desse dia emocionante pelos olhos do meu irmão, que estava lá no Gigante.

  4. Douglas Henrique disse:

    Foi um dos jogos mais sensacional que pude ver. Ainda hj meus olhos ficam lacrimajados ao ver esse gol e onde a bola passou. Naquele dia a felicidade não cabia dentro do peito. Como agradeci a Deus. São coisas que não sai da memória do cruzeirense. Páginas eróticas imortais.

  5. Gilberto Formagini disse:

    de todas as conquistas de Copa do Brasil, esta sem dúvida foi a mais emocionante….. primeira grande conquista que pude dividir com meu filho Rafael… que com seus poucos anos de vida recorda nossa comemoração…. BH mais uma vez vestiu azul… só alegria.

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