Hoje é o dia do dono da 6. Viva Nonato!

Foto: Cruzeiro/Arquivo

Foto: Cruzeiro/Arquivo

Há 49 anos, nascia o maior lateral esquerdo da história do Cruzeiro. Abaixo, o perfil que escrevi sobre ele no livro Anos 90: um campeão chamado Cruzeiro.

Viva Raimundo Nonato!

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Raimundo Nonato da Silva nasceu em Mossoró, Rio Grande do Norte, em 23 de fevereiro de 1967. Na infância, o futebol até fazia parte de suas brincadeiras, mas não era uma modalidade apreciada pela família: “Acho que meus pais não sabiam nem o que era uma bola. O negócio deles era trabalhar para garantir o sustento dos filhos”.

Com o falecimento, em 1979, da mãe, Dona Francisca, ele foi morar com a irmã, em Teresina. Esta era casada com um jogador do Flamengo-PI, o Izael, que o introduziu no esporte. Nonato começou como mascote, entrando em campo com o cunhado. Em seguida, já mais crescido, passou a frequentar os treinamentos e as arquibancadas. Veio, então, a decisão de ser jogador de futebol.

Mas o começo não foi fácil. Ele precisava garantir sua subsistência por outros meios: “Antes de conseguir a profissionalização no futebol, fui servente de pedreiro, vigia de bicicleta e até carregador de balde para madames em feiras”.

Quando, enfim, alcançou o sonho de ser jogador profissional, em 1985, precisou conviver com as dificuldades financeiras e administrativas dos clubes de pequeno porte. As condições de treinamento e a estrutura do Baraúnas, seu primeiro time, não eram nada animadoras. Mas Nonato seguiu em busca de dias melhores na profissão.

Em 1988, transferiu-se para o ABC-RN, clube de futebol mais tradicional do estado. Um ano depois, com a ida do Cruzeiro a João Pessoa, para uma partida contra o Botafogo-PB, pela Copa do Brasil, a sorte de Nonato começou a mudar. O jogo ocorreu no sábado, 22 de julho. No dia seguinte, ABC e Baraúnas se enfrentariam em Natal.

Rubens Heleno, famoso jornalista esportivo potiguar, convidou Seu Pedro Assunção, diretor de futebol do Cruzeiro, para assistir à partida em Natal e observar dois jogadores: Alcides e Nonato.

Pela amizade, Seu Pedro aceitou o convite. Deixou João Pessoa após a partida do Cruzeiro e rumou para a capital do Rio Grande do Norte. Os observados chamaram a atenção do diretor cruzeirense. Nonato, inclusive, marcou um belo gol de falta, na vitória do ABC sobre o seu ex-clube.

Mas, como o próprio craque revela, o sonho de partir para um grande clube teve que ser adiado: “Seu Pedro Assunção conversou comigo e com o Alcides depois do jogo. Disse que havia gostado muito do nosso futebol. Porém, o treinador do Cruzeiro era o Ênio Andrade, que só aceitava jogadores indicados por ele. Garantiu que, mesmo assim, ia levar uma cópia da fita do jogo para mostrar ao treinador. Em seguida, entrava em contato”.

Esse contato demorou. Somente em dezembro, na reunião do Conselho Arbitral da Federação Mineira de Futebol, Seu Pedro Assunção indicou Alcinei e Nonato para José Chaves, presidente do Pouso Alegre. A promessa era de que o clube da cidade mineira montaria um time competitivo para a disputa do Campeonato Estadual. Ambos foram, então, emprestados para o Pouso Alegre, com o Cruzeiro tendo prioridade na compra dos passes.

Com o término do Estadual e a dispensa de Ênio Andrade do comando do Cruzeiro, Seu Pedro Assunção convidou Nonato para um período de observação na Toca da Raposa. Essa avaliação estava prevista para durar de dezembro a fevereiro de 1991. Porém, o desempenho do jogador nos treinos agradou tanto que, no primeiro mês, já aumentaram seu salário e alugaram um apartamento.

Era o sonho realizado, era o triunfo de um nordestino de vida sofrida numa das carreiras mais concorridas do país. Ainda hoje, relembrar essa história lhe emociona: “Quando o Seu José Chaves me informou do interesse do Cruzeiro, parti para Belo Horizonte, deixando esposa e filha em Pouso Alegre. Fiquei morando na Toquinha durante um mês. O período de teste que era pra durar até fevereiro do ano seguinte durou apenas um mês, quando o Clube decidiu comprar meu passe”.

Logo nos primeiros meses de treino, na Toca da Raposa, um fato chamou a atenção: o talento de Nonato para atuar na esquerda, apesar de ser destro. Passou muito tempo explicando o porquê da inversão de lado. Aliás, até hoje é interpelado quanto a isso: “Sempre me perguntam a escolha pela lateral esquerda. A explicação é simples: eu comecei no futebol como meia, jogando de camisa 10. Mas sempre faltava um jogador e, assim, acabei virando coringa na equipe. Num desses improvisos, o diretor de futebol do Baraúnas me viu atuando na esquerda. Coincidiu que, na época, o lateral esquerdo do Baraúnas se transferiu para Porto Alegre. Esse diretor foi até a minha casa e disse que me queria na equipe, substituindo o ex-companheiro. Disse a ele que não era da posição. Mas ele retrucou dizendo que havia me visto jogando naquela faixa do campo e gostou. Aceitei e me firmei ali”.

Coincidência ou não, a chegada de Nonato ao Cruzeiro marcou o início de uma inédita sequência de títulos na história do Clube. Começou com a Supercopa de 1991, que ele mesmo elege como o título mais marcante: “Pelas circunstâncias, por ter sido o meu primeiro com a camisa do Clube, a Supercopa foi a mais emocionante. Vencer, em plena final, o River Plate por 3 a 0 foi espetacular”.

Mas há outras conquistas que ele faz questão de mencionar: “Não tem como esquecer da vitória histórica sobre o Palmeiras, na final da Copa do Brasil de 1996, quando eu era capitão da equipe, nem da importantíssima conquista da Libertadores da América de 1997. São títulos que tenho o maior orgulho de ter vencido pelo Cruzeiro”. No total, Nonato faturou 14 troféus com a camisa do Maior de Minas. Detalhe: todos como titular.

Não são apenas os títulos, no entanto, que envaidecem o jogador. Têm jogadas que, sem sequer ser perguntado, ele faz questão de relembrar: “Já que vai falar da minha carreira no Cruzeiro, têm dois lances que você não pode deixar de contar. O primeiro foi pela Libertadores de 1994, num jogo contra o Boca Juniors, no Mineirão. Percebi o goleiro adiantado e chutei do meio de campo. A bola viajou e carimbou o travessão. Até hoje me param na rua por conta desse lance. O outro ocorreu pelo Brasileiro de 1993, contra o Bahia. O Macalé cruzou, e eu, de canhota, emendei. O Rodolfo Rodriguez defendeu, mas foi reclamar da zaga e soltou a bola. Esperto, o Ronaldinho foi lá, roubou a redonda e marcou”.

Nonato viveu intensamente o Cruzeiro. Nos momentos de crise, mobilizava o grupo, conversava com os companheiros, buscava soluções para mudar a situação. Não é à toa que foi, por muitos anos, o capitão da equipe. Não demorou a se tornar ídolo da torcida. Sempre que entrava em campo, era ovacionado com o grito de “Nonatooo, Nonatooo”.

Aos 31 anos de idade, sete deles dedicados ao Cruzeiro, Nonato partiu para outro desafio na carreira. O Fluminense, em má situação administrativa e financeira, o contratou para as temporadas 1998/99. Nas Laranjeiras, amargou o rebaixamento do clube para a Série C em 1998. Com a grave crise no clube carioca, rumou para Jundiaí, onde defendeu as cores do Etti, atualmente Paulista Futebol Clube. Lá, ficou até o final do ano, quando retornou às Alterosas, para disputar o Mineiro de 2000. Dessa vez, voltou para defender o Villa Nova. Ficou no time de Nova Lima por pouco tempo. Convidado para um novo projeto, foi para o Vale do Aço, onde colaborou com o surgimento e ascensão do Ipatinga, que possuía apenas dois anos de fundação. Em seguida, foi defender as cores do Guarani, de Divinópolis. Até que surgiu a proposta para voltar à terra natal.

Para ele, nada melhor que encerrar a carreira no estado onde tudo começou. Ficou no América-RN por pouco tempo, aceitando, em seguida, a proposta de contrato do ABC. Durou pouco a nova passagem pelo clube mais tradicional do estado. Em junho de 2002, ele decidiu encerrar a carreira: “Eu estava com 35 anos. O físico, nessa idade, já não é mais o mesmo. Se tivesse atuando num clube em que se divide a responsabilidade, até daria pra levar mais um ano ou dois. Mas, nos times que eu vinha jogando, todo o esquema tático era em cima de mim. Eu já não tinha mais condições físicas para lidar com isso”.

Com a aposentadoria, outros desafios apareceram. “Tudo no futebol, que é o que sei fazer”, diz ele. Primeiro, um convite, em 2002, do Alvimar Perrela para assumir, no Cruzeiro, o cargo de observador técnico. Permaneceu nesse posto por três anos, quando surgiu a oportunidade de ser coordenador da observação técnica do Clube. Em seguida, tornou-se supervisor do infantil e juvenil, comandando, assim, boa parte das divisões de base.

Com o sucesso na ocupação de cargos de bastidores, Nonato recebeu convite para ser auxiliar técnico do Toninho Cerezo no Guarani, de Campinas. Em seguida, acompanhou o treinador no Al-Shabab, da Arábia Saudita. Voltou ao Brasil, onde atualmente se encontra para novos desafios no futebol: “Hoje trabalho no gabinete do vice-presidente de futebol do Cruzeiro e Deputado Estadual, Gustavo Perrela. Descarto trabalhar como técnico, não tenho essa pretensão. Mas exerceria novamente a função de coordenador ou auxiliar técnico”.

Indagado sobre o que representa o Cruzeiro em sua vida, enfatizou: “O Cruzeiro é tudo. Foi onde conquistei todos os títulos da minha carreira. Graças a ele, hoje posso dar estudo de qualidade aos meus filhos e uma vida agradável à família. Sou muito agradecido ao Clube”.

Símbolo do Cruzeiro dos anos 1990, Nonato alcançou o restrito grupo dos grandes ídolos da história do Clube. Hoje, em todo lugar que é visto, recebe o reconhecimento do torcedor celeste. Para ele, este é o maior legado que a vitoriosa passagem pelo Cruzeiro lhe rendeu: “O dinheiro, a euforia das conquistas e o glamour da profissão passam. O carinho e a consideração do torcedor ficam pra sempre. E é isto que verdadeiramente importa”.

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One Response to “Hoje é o dia do dono da 6. Viva Nonato!”

  1. Sílvio disse:

    Bela história daquele que também considero o maior 6 do Cruzeiro até ler o nome do Gustavo Perrella…

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